Atriz desde os 4 anos de idade, Isabela Garcia conta que não é
apegada ao passado profissional: em casa, não guarda registros gravados
dos programas dos quais participou e recortes de reportagens com
entrevistas que deu.
— Não sou disso. Nunca fui de me acompanhar, de me ver crescer em cena — explica.
Porém,
diante de quatro dos muitos jovens atores com quem contracena na
próxima temporada de “Malhação”, que estreia amanhã, às 17h50m, na
Globo, a atriz de 46 anos não teve como não olhar para trás e relembrar
os velhos tempos. Na companhia de Marlon Queiroz, de 10 anos, Anna Rita
Cerqueira e Matheus Costa, de 15, e Hanna Romanazzi, de 17, Isabela
afirma que, quando começou — em 1973, num “Caso especial” —, a situação
era “muito diferente” e que hoje é tudo “muito profissional.”
—
Eles levam muito a sério, pensam nisso como profissional, estão no lance
para trabalhar, enfrentam um mercado competitivo. Eu não encarava
assim. Via como uma brincadeira. Pensei em desistir várias vezes, mas aí
vinha um trabalho e eu continuava. Deixei fluir — compara ela, que
pisou num estúdio pela primeira vez por influência do pai, o radioator
Gilberto Garcia, ao lado da irmã, Rosana, atualmente
coach de atores.
Talvez
por se ver espelhada nos jovens, fato é que Isabela parece mais um
deles. Mãe de quatro filhos, com idades entre 25 e 8 anos, ela brinca,
ri, faz piada, abraça. Conta, com orgulho, que é chamada de mãe por
alguns. E que, convidada por Dennis Carvalho para a novela, celebrou a
oportunidade de estar entre os mais novos.
Na história de Ana
Maria e Patrícia Moretzsohn, a atriz é Vera. Mãe de Sofia (Hanna) e
Anita (Bianca Salgueiro), do primeiro casamento com Caetano (Paulo
Betti), ela se junta com Ronaldo (Tuca Andrada), já pai de Giovana
(Bruna Griphao) e Vitor (Eduardo Mello), e com quem tem Pedro (Marlon
Cruz). A ação começa quando o casal decide morar sob o mesmo teto, num
casarão no bairro do Grajaú — o cenário fica no Projac.
— Eu nunca
tive isso de escolher. Sou funcionária da Globo há 42 anos e vou
fazendo. Contracenar com os mais novos deixa o trabalho fresco,
renovado. Eu gosto de criança, sou paciente. Outro dia liguei para a
minha irmã e falei tanto deles que ela me disse: “Você está apaixonada
por eles!” — empolga-se ela entre risos e olhares de aprovação,
principalmente do caçula Marlon, o mais animado do grupo.
— Eu adoro gravar com a Belinha porque ela me enche de carinho — desmancha-se o garoto, em sua estreia na TV.
Apesar
da pouca idade, Marlon já tem duas peças de teatro nas costas. Testes,
já perdeu as contas de quantos fez. E a realidade do menino não é muito
diferente da dos colegas de cena. Hanna começou a carreira de modelo
ainda bebê e já fez duas novelas na Globo; Matheus estreou na TV com 7 e
acumula mais de dez trabalhos no currículo — a última novela foi
“Cordel Encantado”, em 2011 —; e Anna Rita, além dos 11 anos de
profissão, é dubladora e modelo.
— Com 4 anos disse para minha mãe
que queria isso e estou nessa vida doida desde então (risos). Porque
atriz não tem unha, não tem cabelo, não tem nada, você se doa para a
profissão. Além disso, a gente decora texto, faz aula de teatro,
apresenta peça...— enumera Anna Rita, cheia de maturidade. — E é bom ter
gente como a Isabela e o Tuca por perto, porque somos eternos
aprendizes.
Apesar de servir de inspiração, Isabela diz que não
gosta de ser vista como superior. E não suporta trabalhar com gente que
se porta como tal.
— Meu pai sempre ensinou que a gente tem que
respeitar os colegas e os fãs e ter tempo para as pessoas. Minha sorte é
que neste elenco não há um, repito, um ator afetado. E posso garantir
que nenhum deles vai mudar — sentencia ela, contando que a profissão a
tornou uma pessoa ainda mais disciplinada: — Cresci com prazos e
horários. Sempre fui madura e responsável. E o Marlon, por exemplo, por
mais que faça graça, sabe dividir bem as coisas. Eu acho que isso nasce
com a pessoa.
E o prazer de atuar, ela afirma, está acima de todos
os contras que a carreira pode trazer. Um deles é a quantidade de
“nãos” que um ator costuma ouvir ao longo dos anos.
— Eu até gosto de ouvir um “não”, sabia? Significa que há algo que preciso mudar — justifica Matheus .
Isabela opina:
—
Mas isso é maturidade! Porque uma criança que não está preparada ou não
está certa do que quer, ouve isso e desiste. E se o ator for bom, e o
diretor for grosseiro e ruim? Isso acontece também.
Segundo a
atriz, a lucidez dos pais na educação das crianças torna-se essencial,
para que tanto os percalços quanto a fama repentina sejam encarados de
forma ponderada.
— Os pais são fundamentais! Os atores sabem que
vão bombar, vão ter fã-clube. É um prato cheio para o deslumbramento! É
importante também o acompanhamento de um psicólogo, mas a pessoa tem que
estar disposta — reflete.
Todavia, Isabela sabe que, muitas vezes, os pais são até mais afetados que seus filhos.
—
Acho muita doideira os pais que colocam os filhos neste meio apenas
para realizar um capricho próprio, porque é difícil— pontua, afirmando
que, por enquanto, não dá forças para que seus gêmeos de 8 anos sigam
seus passos. — Como já disse, é profissão, é para quem nasceu para isso.
Às vezes eles dizem que querem aparecer na TV e tal, mas dou uma
enrolada. Não acho que seja o desejo deles, assim como nunca foi o meu —
avalia.
Para os atores jovens, porém, estar em “Malhação” significa “realizar um sonho”. Assim mesmo, bem clichê.
—
Estou muito feliz. É um presente. E nem fiz teste para entrar. Fui
convidada e, na semana seguinte, já estava me preparando. É isso que
quero fazer da vida, não tenho dúvidas — reitera Hanna, que termina o
ensino médio no fim do ano e pretende estudar Direito.
Anna Rita,
também no elenco do longa “Confissões de adolescente”, revela que nunca
se empenhou tanto em um teste. No fim da avaliação, saiu da sala aos
prantos:
—Eu já fiz “Malhação” e queria estar aqui de novo. É muito bom ficar com esse grupo jovem.
Isabela concorda:
—
Até agora, não vi nenhum aspecto negativo. Porque são todos empenhados.
Eles são seguros, sabe? Chegam preparados, com vontade de fazer aquilo
bem. E a profissão é simples. Basta o ator simplificá-la.
Fonte: Extra/ OGlobo